segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Poema + Alec Soth

Johnny Cash's boyhood home, Dyess, Arkansas 2002


A foto

mostre a simplicidade às avessas
afasta
deixa ser digna
a casa

não mova um passo
não mexa os olhos

tudo fica sensível com a chuva

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Hopper + Metanóia + Drummond.

Vamos, não chores.
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.

O primeiro amor passou.

O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.

Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis carro, navio, terra.
Mas tens um cão.

Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?

A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.
Tudo somado, devias
precipitar-te, de vez, nas águas.
Estás nu na areia, no vento...
Dorme, meu filho.

Drummond

a areia amarelada entrava pelas brechas das sandálias, mas não pelas meias. Havia chovido e a areia um pouco mais densa que o usual quase não se desmanchava. Tinha um peso, era dono do seu próprio peso, o sentia em cada passo, um após o outro na direção do mar. Era claro o céu, dissolvia pelo ar uma luz pasmacenta onde pequenos riscos e pontos fugidios se chocavam numa miragem. Tudo era imenso, e demoraria vidas inteiras para caminhar do primeiro ao último substantivo. Não estava só, e estava. Penetrava neste útero de luz. Um ar salino e leve ventava devagar. O universo tornara-se gentil por um momento, a mãe, que mesmo tendo o filho adulto, guarda em si a memória do menino. O amava o silêncio das formas, ali tudo era vivo e calmo, suave. Se despe do dia. A mochila vai ao chão logo que tira as sandálias, as meias. Cede dois passos e se agacha e estica a mão. Direita. Se ergue. Agradece. Agradece a gentileza de ser, a imensidão salgada, a Imensidão. Agradece seu próprio peso, o sente contra seus calcanhares, abre as mãos e acolhe na palma a brisa que aumenta. No horizonte de nuvens baixas, três pássaros se erguem das águas, caçavam. Se sente amado, e imenso.

Ao caminhar de volta, já havia decidido ligar pra ela. Estava em paz.

da Viola + Chema Madoz


Silêncio por favor
Enquanto esqueço um pouco
a dor no peito
Não diga nada
sobre meus defeitos
Eu não me lembro mais
quem me deixou assim
Hoje eu quero apenas
Uma pausa de mil compassos
Para ver a menina
E nada mais nos braços
Só este amor
assim descontraído
Quem sabe de tudo não fale
Quem não sabe nada se cale
Se for preciso eu repito
Porque hoje eu vou fazer
Ao meu jeito eu vou fazer
Um samba sobre o infinito
Porque hoje eu vou fazer
Ao meu jeito eu vou fazer
Um samba sobre o infinito

Paulinho da Viola + singular.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Deixa(ndo) pra lá + Jean Béraud



Se seu amor falou que não vai mais voltar: Deixa pra lá
Se você ficou em último lugar: Deixa pra lá
Se tudo começou na hora de acabar: Deixa pra lá
Se você não passou neste vestibular: Deixa pra lá
Deixa, que essa vida um dia muda, você tem que se assumir
E se o próprio amigo o acusa, você deve resistir
Se não tem viola pra lhe acompanhar: Deixa pra lá
Se nesse ano a escola não vai desfilar: Deixa pra lá
Se você pediu tanto e ninguém quis lhe dar: Deixa pra lá
Se também fez um canto pra ninguém gostar: Deixa pra lá
Deixa, que essa fase é passageira, amanhã será melhor
E você vai ver que a cidade inteira seu samba sabe de cor
Se você quer seresta e já não tem luar: Deixa pra lá
Se você foi à festa e não pôde dançar: Deixa pra lá
Se a sua companheira já não quer lhe dar: Deixa pra lá
Aquele amor antigo que só faz vibrar: Deixa pra lá
Deixa, não perturbe a sua vida, carnaval já vem aí
vou brincar com o povo na avenida, descobrindo o que não vi
Se você tem idéia e não pode falar: Deixa pra lá
Se cantou pra platéia e ninguém quis ligar: Deixa pra lá
Se você foi à feira e não pôde comprar: Deixa pra lá
Porque o dinheiro é pouco pra poder gastar... Deixa pra lá
Deixa, que essa vida um dia muda, você tem que se assumir
E se o próprio amigo o acusa, você deve resistir...

Cartola

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Tosca + Klein


"No início do terceiro ato, o dia amanheceria em roma."

A hora da execução se aproxima, estou só agora. Seus sons ainda ecoam, foi ao meio-dia, o estômago egoísta reclama, estamos só eu, ele, Baker. Estamos cansados também, eu nunca assumiria o que pensei quando se foi, uma palavra...Puccini.

Partiu ao meio-dia, mas já havia ido embora a muito tempo, antes mesmo de começarmos já não éramos. Os caminhos que tomamos se bifurcaram na mesma direção tempos antes numa traição inocente, não nos conhecíamos e tudo já estaria terminado.

Deixei a mensagem que não leria...tinha mãos frágeis...finas...capazes de matar...eram frágeis, em sua fragilidade de náuseas, alegrias.....partiu ao meio-dia, o sol estava no centro do mundo, olhava para nós...eu posso voar...estávamos cansados...fecha os olhos...eu posso...o parapeito ainda está lá, o sol...se foi ao meio-dia...o molhado do chão...se espalha, eu também...fecha os olhos...doces mãos...voar...

dos nossos peitos duros, todo amor foi subtraído, estávamos cansados.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Garoa + Goeldi


Não há jogo, ou tempo. O que temos é a certeza das coisas finitas, o que não acaba não interessa. Temos sorte e dor. O que não temos é tempo. É um exercício pertencermos a algo. Somos os donos do que nos pertence? Entende o duplo sentido desta frase? Me levanto, as costas cansadas. Qual a diferença? Não é essa a pergunta primeira? Nos sentimos e estamos sós, por dentro de nossa pele amigo, não há mais ninguém.

Qual o nome do momento que percebemos o que não gostamos? Ruína, o fim das coisas mora no seu início. Se foi, mas não sabe. Nunca saberá, mas se foi. A inocência está morta, e com ela o que podemos esperar. Hoje é dia de sangue. Não hão regras, e isso não é uma regra, poderíamos ter, mas não há.

Garoa lá fora. Hallelujah.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Brossa + Hopper


A prova é que o poder atua como único centro
e no mundo se produzem artifícios
que compactuam com todas as conclusões (e gêneros
de especulação) que seria conveniente abandonarmos.
A força das rochas não pensa.

Joan Brossa.


Lembrou do tigre que guarda em suas manchas o nome de Deus; Do homem que todos os dias deita no quarto onde não existe chão. Lembrou do profundo silêncio das ausências e da solidão que a todos acompanha.

Lembrou do vento de onde nasceu; Da forma das montanhas e de como cantavam depois da noite rasa.

Lembrou dos dias massacrantes e do tempo em que parou de falar.

Lembrou das vezes que escreveu, dos verbos que usou, dos adjetivos que não, dos substantivos que esqueceu.

O mundo já dormia quando decidiu parar, e convenientemente beijar sua mulher. Com a mão na boca e os óculos dobrados, apagaria a frase onde se despedia.